quinta-feira, 21 de agosto de 2014

CAPÍTULO 27

E meu celular tocou novamente, mas dessa vez já era de madrugada. Olhei para o visor e vi o nome da mamãe. Nem preciso dizer que já to preocupada né?!
- Alô?
- Filha - ela disse com a voz falha, chorando.
- Mãe?! O que houve? O que aconteceu? - sentei na cama.
- Sua Vó - e ela chorou de novo. Nada precisava mais ser dito. Ela se fora.
- Mãe, eu to indo para aí. - digo tentando passar firmeza, porque nessa hora já havia um buraco em mim.
- Tudo bem. - ela disse e desligou.
Não sabia como agir, minha cabeça girava assim como meu estômago. Um choque estava percorrendo todo o meu corpo, minha voz sumiu e a única coisa que eu conseguia fazer era chorar.
Eu nem pude me despedir. Eu nem tive tempo de dar mais um abraço nela e deitar em seu colo para ouvir suas histórias com o vovô. Agora, eles vão se encontrar.
Thamires apareceu no meu quarto, dizendo que escutou meu choro.
- A vovó - não sei se minha voz saiu - ela se foi.
Thamires me abraçou e chorou junto comigo, afinal, ela também conviveu com minha Vó.
- Eu preciso ir pra lá. - digo limpando as lágrimas e levantando da cama.
- Eu vou junto. - ela disse se levantando também.
- Okay. - Thami foi para seu quarto.
Abri meu guarda roupa e peguei a primeira calça e camisa que vi na frente. Coloquei meu tênis da oüs e um cardigã. Peguei minha mala, a menor delas, e coloquei só coisas necessárias. Arrumei meus documentos na bolsa, celular, óculos e boa.
Antes de sair do quarto, lavei meu rosto para ver se melhorava. Mas não melhorou. Parecia que um caminhão tinha passado em cima da minha cara.
Saí no corredor e vi a Thamires também saindo do quarto.
Ligamos para um táxi e por glória do destino tinha um vôo para MG. Já era 4:50 da manhã.
Durante o vôo, só me passava imagem da minha Vó e devido a isso, a impressão que dava era que chegamos em cinco minutos.
Pegamos outro táxi e o sol já estava aparecendo. Fomos para minha casa e chegando lá haviam vários carros.
Assim que entrei, vi mamãe sentada no sofá com um copo d'agua, papai do lado passando as mãos nas costas dela, os dois com os olhos vermelhos, mas minha mãe... ela já havia perdido o pai, agora a mãe. Não consigo imaginar a dor.
- Mãe - sussurrei para mim mesmo enquanto ia em sua direção. Me abaixei em sua frente e a abracei na tentativa de passar forças. Eu precisava disso, precisava ser forte por ela, para ela.
Está doendo em mim, muito. Mas não tem comparação de como ela deve estar.
- Obrigado. - ela disse no meio do choro.
- Mãe, olha - me soltei de seus braços para poder olhar em seus olhos. - Ela tá num lugar melhor. Ela vai encontrar o vovô e agora os dois vão cuidar da gente. - sei que nada disso ajuda, bom, pelo menos quando me falam isso nada muda, mas faz parte, podemos se dizer que é uma obrigação quando alguém muito próximo se vai.
- Eu sei - ela deu um meio sorriso e passou a mão pelo meu rosto.
Abracei o papai e nada foi dito. Ele não tinha o que dizer, nem eu. A casa estava cheia de tios e tias, primos que a muito tempo não via, alguns me deu até problemas em reconhecer. Todos vieram com aquela coisa de "meus pêsames", "sinto muito" mas sabe quando você vê que só falam da boca para fora?
Mais da metade não via a vovó por um bom tempo, muitos não estavam nem aí para ela desde então. Tá, digamos que eu não era a neta mais presente e que nesse último ano a vi poucas vezes... mas era diferente.

O funeral foi torturante, assim como a coisa toda. Mamãe passou mal, tivemos que dar calmantes para ela. Mas podemos se dizer que depois que a vi, eu senti algo. Ela estava bem (tá, ninguém fica bem dentro de um caixão) mas ela estava com uma aparência serena, usava seu vestido preferido e seu cabelo grisalho estava da forma que ela mais odiava. Sorri lembrando dela quando ela falava de seu cabelo.
E então, finalmente aquela tortura teve fim. Depois do enterro, não quis ir para casa. Não queria ver gente hipócrita, chorando de uma forma que pensasse convencer de estar realmente triste. Mas pela mamãe, eu fui. Depois de eu convencer, ela tomou um banho. Dei um remédio para ela e ela conseguiu pegar no sono.
Desci para a sala e todo mundo ainda estava lá, com a cara de paisagem.
- Ela tá melhor? - Tia Ludmila perguntou.
- Sim. Ela dormiu agora.
Fui em direção da porta quando escutei um "Não sei para que aquele escândalo todo no enterro".
Virei e falei. - Realmente você não sabe o porquê. Não sabe porque para você, aliás, vocês todos tanto faz e tanto fez. Se fingem de triste mas na verdade para vocês foram um alívio. Realmente vocês não sabem a dor de perder alguém que se ama. Por favor, poupe-me de tanta falsidade, vocês não estavam nem aí para a vovó, nunca tiveram. Só queriam saber de sugar ela. Hipócritas." Todos me olhavam com uma expressão de assustados. Me virei e saí, sem rumo, sem direção.
Eu estava perdida. O que fazer? O que pensar? Eu só queria o fim dessa dor, dessa tristeza, do vazio em mim.
Por fim, parei no campo onde o Lucas me levou naquela madrugada. Sentei ali e desabei. Chorei tudo o que segurei durante o dia. Chorei para mostrar que não, eu não era forte o bastante igual pareci ser o dia todo. Chorei em desabafo.
- Por que? Por que você me tira pessoas tão maravilhosas da minha vida? - digo olhando para o céu que estava repleto de estrelas e uma lua grande cheia.
- Ele sabe o que faz - escutei uma voz atrás de mim.
Me virei e o Lucas estava ali parado, olhando para o céu com as mãos no bolso.
- Lucas?!

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